O processo de impeachment e a nova dinâmica dos movimentos de organização de massa

Por Marcelo Carvalho*

A votação da admissibilidade do processo de impeachment da (ainda) presidente da República evidenciou um sentido de “missão” (isto é, de serviço) principalmente naqueles deputados que votaram pelo impedimento, já que na fala de muitos deles emanava uma forte convicção de que estavam votando por algo grandioso, que se colocava como um dever de honrar e de se comprometer diante da Nação, das suas famílias e de Deus.

O fato de muitos talvez não encarnarem este espírito cívico além desse efêmero momento da votação de ontem não deve ser visto como um lamento, mas, sim, como um alento de que em situações ordinárias é possível esperar também, como num caso limite, um comportamento honrado de nossos congressistas, o que vai ocorrer sempre que a sociedade se dispor a fazer sua parte cobrando de seus representantes no Congresso a mesma honradez e sentido de serviço que muitos deles demonstraram ter ficando em Brasília por horas ininterruptas no cumprimento de seu dever a Nação [1].

Mas, de onde vem essa força, essa vontade? Certamente que a importância do processo contribuiu para dar um tom solene a votação, mas, de igual importância, temos também a publicidade que foi dada ao processo como um todo, em particular, pela atuação de alguns movimentos de organização de massa baseados nas redes sociais, por exemplo, “Movimento Brasil Livre” (MBL), “Vem pra a Rua”, “Revoltados Online” etc. que exerceram uma pressão sobre os deputados tornando visível aos que seguem suas publicações nas redes sociais como cada deputado iria votar.  E tal pressão foi fundamental no placar final da votação do impeachment.

É de se estranhar que ainda não tenham feito um estudo aprofundado sobre o MBL, pois a trajetória desses jovens é mesmo digna de nota. Tal movimento, ao que parece, teve seu ponto de ignição numa atitude infantil da UJS que vandalizou a entrada da revista Veja a mando de seus cooptadores de plantão que ficaram incomodados com uma reportagem desfavorável a então candidata a reeleição, Dilma Roussef. Assim, formado o MBL, e aproveitando o movimento favorável das grandes manifestações de 2013, o MBL (e outros movimentos similares) conseguiu se apresentar como um organizador dessa insatisfação, dando voz e criando um espaço participativo para um majoritário e crescente segmento da sociedade que desejava expressar sua opinião e ser ouvido sem, contudo, se tornar militante de uma causa ou ideologia (neste sentido, esses movimentos tem o potencial de agregar vários estratos sociais).

Com o advento do MBL e da sua capacidade de mobilização, vemos aqui uma ruptura com a forma como o PT e a esquerda se articulam. Com efeito, desde muito tempo o PT se acostumou com a herança da organização sindical e de movimentos do tipo MST, MTST, etc., os ditos “movimentos sociais”, de modo que acreditou que poderia criar um apelo popular ao seu projeto de poder a partir da sensação artificial criada por megaeventos promovidos por centrais sindicais e por marchas disso e daquilo protagonizada por camponeses miseráveis enganados pelo MST para desempenhar o papel de massa de manobra de suas manifestações [2]. De quebra, a adesão de figuras do meio da cultura (alguns cujo talento talvez tenha se amplificado demasiadamente pela sua militância e não pela qualidade artística em si) aliado a um número inimaginável de ditos “acadêmicos” que sempre capricharam no discurso de estigmatização da classe média [3] junto com a divinização do PT, visto como “governo dos pobres”, acabou por dar um esboço final à vitrine propagandística do PT, peça fundamental de todo discurso fasci-comunista. O efeito eficaz dessa propaganda deu bons frutos ao PT em, pelo menos, quatro eleições. Assim, enganou-se o povo criando o mito da “inclusão social” que, na verdade, se revelou um processo de dependência no estilo do antigo coronelismo, pois não é a simples concessão de bolsas-família que serve de parâmetro para erradicar a pobreza, mas todo um conjunto de outras medidas imprescindíveis como educação e saúde de qualidade [4], algo que ainda não temos.

Diante desse cenário e de tal propaganda negativa, restava à classe média se conformar e esperar, mas, então, surge o MBL, Vem pra Rua, etc. que usando a novidade das redes sociais agregaram parte da classe média, até então dispersa. Em pouco tempo, a multidão reunida por estes movimentos em ambiente virtual responde solicitamente a chamada para ir às ruas e, assim, toma corpo e ocupa as ruas em número bem maior que a militância petista. De certa forma, não deixa de ser correta a afirmação de alguns petistas esnobes que se deleitavam em dizer que as manifestações do MBL só agregavam a classe média, e nisso ficou famosa a foto de um casal indo à caminhada do MBL tendo uma babá uniformizada puxando o carrinho do filho do casal. Contudo, o mesmo petista esnobe ignora que a classe média possui vários estratos e, assim, erra grosseiramente quando afirma que é o “povo” (mas, quem é o povo?) que vai as manifestações do PT quando sabemos que os que lá vão acabam sendo a mesma classe média, composta na sua quase totalidade por sindicalistas e funcionários públicos, ajudados por militantes ou simpatizantes de “movimentos sociais” que recebem um pagamento para estarem ali, ou são iludidos por um discurso fraudulento e, dessa forma, tampouco poderiam ser identificados como povo, já que são uma pequena minoria. Ou seja, o discurso petista mal construído acabou por se mostrar também autofágico, pois se o PT se gaba de tirar milhões da pobreza (tirou mesmo? Sob que critérios? Ver nota [4]) então ele pretensamente elevaria esses indivíduos da pobreza à classe média, ora, mas que sentido teria o PT em fazer isso se ele estigmatiza a própria classe média? Assim, inebriado com a certeza de que tinha um apelo popular, o PT se mostrou aturdido com a reação e forma de organização desse novo movimento de massas que se formou num ambiente virtual, mas cujos simpatizantes se dispõem a ir para as ruas quando devidamente motivados para isso.

Ao fim do processo de impeachment é difícil prever qual será o futuro do MBL, Vem pra Rua etc.. Talvez possam enfatizar novas lutas como a reforma do Estado, o combate à corrupção (que, aliás, já vem fazendo) etc.. Enfim, o fato é que deram uma contribuição original e fundamental ao confrontar o projeto autoritário petista  usando as redes sociais e demonstrando que é possível organizar as massas por uma ótica menos ideologizada, menos militante, e por isso mesmo mais direta ao coração e vontade de quem quer mudanças e renuncia ao projeto de poder desse maldito partido. Serviu, mais ainda, para deixar evidente que, num sentido mais amplo, por “povo” entende-se todos os estratos sociais da nação e que a espontaneidade da adesão a uma causa é fundamental para ter legitimidade e uma ampla participação e que, por isso mesmo, contar como faz o PT com militantes oriundos do sindicalismo ou simpatizantes de ditos “movimentos sociais” engajados por uma ideologia não agrega o povo neste sentido mais amplo a que eu me referi, pois, que segmento mais significativo ia as manifestações do PT além de sindicalistas, funcionários públicos e simpatizantes de movimentos sociais? Desmonta-se, assim, a prepotência do discurso da “intelectualidade” da esquerda quando de forma pretensiosa se colocam como procuradores do povo, mesmo que o povo não tenha lhe dado procuração alguma.

Notas:

[1] A destoar, apenas, o sistemático comportamento reprovável do incorrigível deputado Jean Wyllys que, desta vez, extrapolou sua especialidade bem característica, o “bate-boca”, para cometer a desonra e a baixaria de cuspir na cara de um desafeto político.

[2] Aliás, típico de uma ação marxista, que interesse tem o MST em erradicar a pobreza no campo, já que com isso perderia sua massa de manobra? Assim, o aprofundamento das contradições é a única meta, logo, por esta ótica, não se pode esperar que o MST proporcione ganho efetivo aos pobres do campo.

[3] É notável aqui a forma rancorosa como a dita filósofa do PT, Marilena Chauí, uma vez se referiu à classe média num evento do PT, como se ela mesma, professora universitária, não pertencesse à dita classe, embora não reconheça isso.  Fica evidente também a razão de Dilma Rousseff ter sido insultada quando se aventurou ir a um estádio de futebol durante a copa.

[4] A província canadense de Ontario concede um benefício parecido com o bolsa-família, o “milk-fee”, que, como o nome já diz, é um auxílio para famílias de baixa-renda, mas, diferente de nós no Brasil, Ontario dispõe de boas escolas públicas e de um sistema de saúde universal de qualidade, algo que nossa educação e o SUS nem de longe podem oferecer.

*Professor do Departamento de Matemática da UFSC

FONTE

 

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