Ideologia de gênero e o neo-paganismo (1ª parte)

Marcelo Carvalho*

Nos aspectos morais continuamos a viver o neo-paganismo, contudo, diferente dos romanos (pré-cristãos) não havia naquela época uma moral cristã evidenciando uma alternativa a isso.

O caráter globalista da ideologia de gênero une segmentos tão díspares e antagônicos quanto se possa imaginar. Isso se percebe na adesão de amplos setores da esquerda à ideologia de gênero bem como na pressão exercida diretamente por vários governos, fundações (Ford, Rockfeller etc.) e ONGs em instâncias como a ONU, etc.. Recentemente, foi noticiado no dia do orgulho gay que várias representações diplomáticas dos EUA exibiam a bandeira do arco-íris, símbolo do movimento LGBT. Essa propaganda ostensiva do governo americano inaugura uma nova fase da ação do movimento. Também contribui para isso a forma tendenciosa com que a mídia interpreta as palavras do papa Francisco sobre a questão do homossexualismo.

É preciso observar que há um elemento comum nestas manifestações que se abriga sob o discurso de direitos humanos e que tenta moldar uma nova forma de pensar a questão da ideologia do gênero ao projetá-la para além de uma mera questão de foro íntimo, e cujo objetivo é por sob questionamento o próprio valor do tradicionalismo na qual se assentam religiões como o cristianismo e o islamismo. É o que podemos chamar de homossexualismo militante ou militância do gênero.

Tal enfrentamento, contudo, não é algo novo. De fato, no passado, figuras eminentes do catolicismo combateram heresias que confrontavam certos aspectos da doutrina cristã. Hoje, a ideologia de gênero ao pretender anular o valor da moral cristã torna-se apenas mais uma dessas heresias. Mas, há um lado contraditório aqui, já que os militantes do gênero pensam que adotam um discurso de vanguarda colocando-se como propositores de um novo paradigma. Contudo, é exatamente o contrário. Com efeito, se as orgias romanas assinalaram a aceitação pública do homossexualismo para os romanos (bem como toda sorte de perversões sexuais), então a carta de São Paulo aos romanos assinalou um ponto de inflexão para os membros da incipiente comunidade cristã de Roma ao condenar o ato homossexual e servir de exortação a um novo modo de vida para aqueles cristãos. E assim tem sido ao longo dos séculos por dois mil anos, desde que o cristianismo inaugurou uma nova forma de organização familiar, digamos, tradicional e bem definida em relação à dualidade homem e mulher e aos compromissos morais inerentes a essa condição. Assim, neste sentido, a negação deste modelo tradicional reduz a militância de gênero a uma forma de neo-paganismo. O que talvez seja novo nesta militância é a abrangência de sua atuação e os efeitos que desencadeia.

Mas, se a ideologia de gênero no seu caráter global se caracteriza pelo ataque ao cristianismo e se constitui uma forma de neo-paganismo, estaria ele promovendo um retorno especificamente ao que? Essa pergunta é importante, pois se a necessidade é de um retorno ao paganismo pré-cristão então, de certa forma, isso é desnecessário, pois, em nosso tempo, os similares das orgias romanas nunca deixaram de ocorrer e tampouco são motivos de espanto hoje, como bem demonstram os “cruzeiros do sexo” que atraem tantos jovens, ou uma festa recente no campus de uma universidade federal fluminense que teve ritos de sexo satânico com atos de orgias coletivos e de mutilação de uma participante. E o que dizer do Japão, onde japoneses adultos continuam a ter um fetiche por colegiais a ponto de criarem um termo “enjo-kosai” (algo como namoro compulsório), segundo alguns, para não ter que aplicar o termo prostituição. Ou seja, nos aspectos morais continuamos a viver o neo-paganismo, contudo, diferente dos romanos (pré-cristãos) não havia naquela época uma moral cristã evidenciando uma alternativa a isso.

Ora, é evidente que os valores cristãos sobre a família servem como antítese ao modelo pregado pela ideologia de gênero, mas o que confere uma legitimidade a este modelo familiar tradicional é o fato que mesmo não-cristãos conseguem ver algo de positivo neste modelo, a ponto de o reproduzirem para si. É esta legitimidade que permite que vejamos a família tradicional separada da base cristã que a originou, se impondo como um princípio natural para além de qualquer elemento religioso. Individualmente, pode-se seguir outros princípios, mas sendo a família tradicional um princípio natural parece improvável que se consiga substituí-la em larga escala. Assim, todos os esforços da militância de gênero em tentar mudar isso pela persuasão e propaganda estão fadados ao fracasso (ainda que os autores e atores das novelas globais se esforcem muito para reverter isso, bem como alguns que ostentam teses acadêmicas sobre o assunto). Resta então a pretensa via “legal”, e é aqui que entra a questão dos direitos humanos e a consequente criminalização com a criação de leis anti-homofobia cuja aplicação visa adicionalmente restringir a livre expressão religiosa. De fato, há uma tentativa por parte dos ideólogos do gênero (assim chamados de “generistas”) de criminalizar o cristianismo pela afirmação de seus princípios morais, principalmente no que se refere ao homossexualismo. A carta de São Paulo aos romanos 1, vs.21-31, é taxativa neste sentido, sendo uma condenação ao ato homossexual, ainda que pese a interpretação obtusa de alguns teólogos e exegetas que tentam suavizar o sentido do texto. Mas, estamos aqui diante de uma mera afirmação da moral cristã diante de um aspecto específico da sexualidade. Ora, a moral cristã regula consideravelmente a questão sexual mesmo entre pessoas heterossexuais, sendo falso, segundo o catecismo da igreja católica, o argumento corrente de que entre um casal homem e mulher tudo é sexualmente permitido. Não é. Contudo, mesmo diante de tal rigor o máximo que se vê é uma crítica por parte de alguns que põe o cristianismo como algo pré-histórico, ultrapassado. Ninguém pretende criminalizar o cristianismo por isso. Por que razão, então, é somente a condenação cristã ao ato homossexual que se pretende criminalizar, se há igualmente várias restrições a outras condutas sexuais? A resposta vem da análise de “quem” levanta a questão, no caso, os generistas, e quais são suas reais intenções.

Finalizando, percebe-se que a ideologia de gênero se articula como um movimento de cunho globalista que incorpora vários elementos, alguns antagônicos do ponto de vista ideológico, mas igualmente unidos na percepção de que é preciso erradicar a concepção da família tradicional. O antídoto contra isso será a afirmação do “tradicionalismo”. Na base de tudo está um reavivamento da vida comunitária, tão presente (mas não exclusivo), por exemplo, nas comunidades cristãs ou católicas que se reúnem nos seus cultos ou missas dominicais e nas várias comunidades leigas que formam um núcleo de congregação de famílias, estrutura que é uma verdadeira escola de vida comunal e de fraternidade e que por isso mesmo causa tanto ódio aos ideólogos do gênero.

*É professor do Departamento de Matemática da UFSC

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