A direita e seus mitos sobre 1964

Rodrigo Sias*

Nos dois últimos artigos, centrei a análise do período militar sobre a ótica da esquerda e sua mitologia em torno do Regime de 64. Mas, como podemos ver com a reedição da “Marcha pela Família” há alguns dias, a direita também mantém seus mitos. Vamos aos três mitos principais.

Em primeiro lugar, se a esquerda pregava a revolução, a direita também não era tão democrática assim. Tentou impedir a posse de Getúlio, de JK e de Jango, e ensaiou um golpe em 1954. Havia uma enorme dificuldade em lidar com a democracia de massas e o populismo no contexto da polarização da Guerra Fria.

Em segundo lugar, embora a derrubada de Jango tenha sido fortemente apoiada por forças conservadoras, o regime que se seguiu não foi conservador de maneira nenhuma. Ao contrário, os militares tomaram as rédeas do movimento e, ao colocar de lado todas as organizações que os apoiaram, foram responsáveis diretos pela ascensão espetacular da esquerda após a redemocratização.

Se houve alguma idéia a dar suporte ao Regime, essa idéia foi o positivismo. Presente nas Forças Armadas desde o fim da Guerra do Paraguai, o positivismo, entre outras proposições, pregava que uma classe deveria tomar o poder e modernizar o país através de um governo autoritário e “científico”.

Entre os militares, essa ideologia auto-elegeu-os como a classe protagonista da modernização do Brasil. Foi essa mentalidade que deu origem a Proclamação da República, ao Tenentismo, e por fim, a crença de que os “tecnocratas” do Regime de 64 colocariam o país na rota do desenvolvimento – “passando o país a limpo” -, tornando desnecessária a discussão democrática e a batalha cultural.

É verdade que a administração dos militares fez o país crescer fantasticamente (passamos a ser a 8ª economia do mundo), construiu a infraestrutura e criou milhões de empregos. No entanto, a tese econômica que vingaria seria uma visão estatizante nada conservadora. A idéia tenentista de industrialização, dirigida e comandada pelo Estado, cujo auge foi no governo Geisel e em seu II PND, basicamente corroborava a substituição de importações da Cepal, além de incluir elementos das “Reformas de Base”.

Por fim, foi também durante o governo militar que foram implantados o controle de natalidade e a lei do divórcio, medidas francamente anti-conservadoras.

Portanto, se a deposição de Jango pode ser chamada de “contra-revolução”, uma vez que abortava a guinada comunista de seu governo, por outro lado, o que se seguiu foi uma “revolução” no sentido de alterar por cima as estruturas da sociedade através de uma enorme concentração de poder.

O último mito é a ênfase de que os militares “venceram as esquerdas”. Eles podem ter vencido aquela batalha específica contra as guerrilhas, mas não a guerra. Derrotada militarmente, a esquerda conseguiu tomar conta do meio cultural, e assim, preparar sua futura ascensão.

A comprovação: toda a narrativa do período foi escrita pelo “lado vencido” e as principais figuras dos últimos governos são justamente os supostos “derrotados” no passado.

Se a esquerda utilizou-se habilmente de seus mitos sobre 1964 para tornar-se hegemônica no presente, a direita como força organizada – e não só fisiológica – só irá ressurgir quando se despir de seus próprios mitos sobre esse período.

* Economista pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro —UFRJ

Originalmente publicado em Brasil Econômico, nº 1156

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