Os mitos de 1964

Rodrigo Sias*

Com a chegada da data que marca os 50 anos da chamada “Revolução de 64” para os simpatizantes ou “golpe de 64” para os críticos, o imaginário brasileiro tem sido invadido por diversos lugares comuns, os quais pouco acrescentam ao entendimento histórico do período. Alvo de milhares de teses históricas a respeito, os anos do Regime Militar ainda seguem envoltos em uma enorme aura de mistificação. Primeiramente, a intervenção militar não surgiu por iniciativa da caserna.

Ao contrário, ela foi pedida por amplos setores da população: religiosos, empresários, deputados, líderes comunitários, governadores, imprensa etc, todos cansados do caos criado por João Goulart e seu apoio ostensivo a radicais e comunistas.

A lembrança da Revolução Cubana ocorrida poucos anos antes ajudou a organizar a militância conservadora, resultando numa intensa mobilização contra o governo. Naqueles anos de Guerra Fria, o clima de radicalismo não deixava dúvida: a alternativa à deposição de Jango não seria a normalidade democrática. Qualquer desfecho resultaria em autoritarismo.

Outro dos mitos difundidos é a narrativa segundo a qual os grupos da esquerda armada lutavam por liberdade e democracia, representando uma reação tardia à violência dos militares. No entanto, a verdade factual é a seguinte: todos os grupos da esquerda radical lutavam por uma ditadura do proletariado do tipo existente em Cuba, país o qual, inclusive já financiava o treinamento de forças guerrilheiras no Brasil desde pelo menos 1963, com base na estratégia do “foquismo”, a ideia de criar focos de guerrilha por toda a América Latina. Ou seja, as guerrilhas brasileiras já estavam em operação antes da chegada dos militares no poder.

O que de fato a esquerda revolucionária conseguiu foi o endurecimento do regime. De 1964 a 1968, foi a ala mais moderada que prevaleceu entre os militares e a intervenção tinha por objetivo apenas “arrumar” a casa. Com a bomba de Guararapes e a escalada da violência armada, os militares “linha-dura” ganharam espaço e puderam dar um “golpe dentro do golpe”. Foi durante vigência do AI-5 (1968-1979), que se estabeleceu, de fato, uma ditadura formal, com a suspensão de direitos constitucionais, justificada pela necessidade de desarticular as ações armadas.

Sobre o grau repressivo do período, apesar de toda a retórica dos militantes de esquerda,“os anos de chumbo” foram incomparavelmente menos violentos que os ocorridos em outros regimes a nossa volta. Foram cerca de 400 mortes e 2 mil presos políticos durante 21 anos, o que contrasta com o rio de sangue que correu nos nossos vizinhos sul-americanos. Isso, para não falar das matanças ocorridas em Cuba e dos genocídios ocorridos em outros regimes comunistas. Em que pese os episódios de censura, a repressão dirigiu-se quase que exclusivamente contra os grupos armados.

A interferência maciça dos EUA também é outro mito. O pano de fundo da Guerra Fria ajudou ao reconhecimento do governo militar pelos americanos, mas o movimento de deposição de Goulart contou, no máximo, com uma simpatia velada e implícita.

Toda a documentação que ano após ano aparece, mostra exatamente a hesitação americana sobre o que fazer e não uma resoluta vontade de apoiar um golpe.

* Economista pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro —UFRJ

Originalmente publicado em Brasil Econômico, nº 1146

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