Comentários a partir do jornal “Zero” da UFSC – Parte 1

Augusto Pola Júnior

Andando pela UFSC quando, em contra mão ao sentido que eu caminhava, passou uma moça e ofereceu-me, sem que ambos deixássemos de caminhar, a edição especial do jornal ZERO – o jornal do curso de jornalismo da UFSC. Esta edição especial aborda o recente episódio de confronto de esquerdistas contra a polícia no campus e a posterior invasão a reitora na tentativa de transformá-la em uma república de maconheiros. O jornal teve o cuidado de ouvir todos os lados e procurou, segundo o editorial na primeira página, ser imparcial. Para conclusões mais completa, recomendo a leitura que pode ser feita aqui. Passo então para análise das partes que julguei mais interessante da edição.

ufsc zero

Após o editorial, inicia-se na página 3 a primeira matéria intitulada “Operação não era para combater o tráfico, diz diretor” e com o subtítulo “PM ficou decepcionada com ação, diz vice-reitora”, ou seja, a primeira matéria já começa com um destaque que favorece a parte esquerdista da história, embora a matéria em si apresente os contraponto dos policiais. O mais interessante dessa matéria, contudo são as partes que seguem abaixo (grifo nosso):

“De acordo com Lucia [vice-reitora], a própria PM ficou decepcionada com a operação, já que os fatos mancharam a imagem de uma cooperação com a Universidade contra o tráfico que vinha dando resultados positivos sem causar escândalo. Ela diz que o CFH [Centro de Filosofia e Humanas] é um espaço de discussões inflamadas e que a reação dos estudantes foi natural

Hostilidade contra a polícia (comentarei alguns pontos do episódio mais a frente ao analisar outra matéria), depredação de carros é, segundo a vice reitora, uma reação natural. Desde quando um “espaço de discussões inflamadas” é salvo conduto para baderna? A vice-reitora aborda a mancha que se criou na relação entre a universidade e a polícia, mas esquece de mencionar que a vergonhosa nota oficial, com tom bastante ofensivo contra a polícia, partiu do lado reitoria. Se o termo usado foi cooperação, que deixe a polícia fazer o seu trabalho.

É fácil de entender uma cooperação entre universidade e polícia. A universidade preocupa-se com ensino, pesquisa e extensão, que é a sua função institucional, e a polícia com a segurança. Simples, não?

No parágrafo seguinte está escrito:

“A inteligência da PF encontrou um único usuário e cerca de dez grama de maconha no momento em que o Deseg registra o menor número de ocorrências – de todos os tipos – nos últimos cinco anos.”

Em uma outra matéria é contado a história: a polícia, com uso de cães farejadores, com suspeita de que estavam enterrando drogas no planetário [um famoso local da UFSC relacionado ao consumo de cannabis] foram lá averiguar. Não encontram nada, mas viram um grupo de estudante suspeito, no qual foi encontrado droga com um deles. Sendo pouca quantidade, configurou-se consumo e não tráfico, no entanto, isso não exime o maconheiro de ter que assinar o termo circunstancial. E todo o tumulto contra a polícia se iniciou porque estavam querendo impedir a polícia de exercer o seu trabalho, isto é, levar o rapaz até a delegacia para assinar o termo e ser liberado em seguida.

Então o que temos aqui é um fato! O rapaz estava com drogas. Não interessa se o número de ocorrência está diminuindo – se isso realmente é verdade, então de fato é uma boa notícia -, também não interessa que foi apenas um único usuário… O fato é que ele estava com maconha. E é dever da polícia não deixar isso passar batido, mesmo sendo pouca quantidade, pois isso seria prevaricação. Aliás, se fosse muita quantidade de droga, configuraria tráfico e ao invés de ter que assinar o termo circunstancial, o estudante iria preso sem direito a fiança. Resumo da opera: se é pego com pouca quantidade, tem que assinar o termo circunstancial; se com muita, prisão. O modo como o jornal expôs a questão – se foi intencional ou não é indiferente – tentou relevar essa questão ao sugerir que “era pouca quantidade, era para ter deixado passar”. Na prática, esta matéria está defendendo sutilmente a prevaricação policial ante o consumo de drogas.

A parte mais interessante da matéria vem da declaração do professor Paulo Pinheiro Machado:

“Não foi uma operação contra o tráfico”, dispara o professor Paulo Pinheiro Machado, diretor do CFH. Machado afirma que as posições política da reitora em relação a interesses locais devem ser encarados como contexto da operação”

Pronto. Está montado a Teoria da Conspiração. Tudo ocorreu por causa da “posições políticas da reitora em relação a interesses locais”. O que seriam esses interesses locais? O mais importante da teoria conspiratória, o professor deixou passar. Se o contexto, como disparou o professor, deve ser encarado deste modo, então não resta outra alternativa a não ser considerar que a posição política da reitora é em defesa da liberação da maconha e os interesses locais seriam a “maconha livre” na universidade. Se for isso, Machado tem toda a razão. Se não foi, então é aquela velha estratégia de se posar como “vítima” de uma conspiração externa. O famoso truque de culpar um agente externo como forma de camuflar suas culpas.

Na mesma página, um pequeno quadro com alusão à “autonomia universitária”, como se isso desse poder para a UFSC proibir o trabalho da polícia no campus ou de transformar a universidade em uma república de “viva maconha”. Isso ficará claro mais adiante.

Na página 5, uma entrevista com Clyton Eustáquio Xavier, representante máximo da Polícia Federal em Santa Catarina. O título da matéria foi “Minoria quer bagunça e maconha”. Vale a pena começarmos pelo subtítulo:

“Apesar das críticas, a Polícia Federal segue em defesa da ação realizada em 25 de março no campus. […]“

Eu me pergunto se as críticas da turma da maconha deveria ser motivo para a PF deixar de defender a ação realizada no campus… Enfim, é curioso o modo como foi feito algumas perguntas. Em negrito a pergunta do jornal e em citação normal a resposta do policial:

“Nesse caso, se a maconha estava dentro da mochila, os policiais mesmo assim poderiam fazer a abordagem? SEM FLAGRANTE E SEM COMUNICAR A REITORIA? [destaque nosso]

 

S: Qualquer policial pode abordar as pessoas em situação suspeita, em qualquer lugar. Na análise subjetiva dos policia, eles eram suspeitos. É bom deixar claro que o policial não tem a obrigação legal de avisar ou pedir autorização para reitor, Ministério da Educação ou quem quer que seja, para investigar, reprimir a criminalidade dentro do campus ou em qualquer lugar.

 

“Isso não fere a autonomia universitária?”

S: A autonomia universitária é para fins administrativos, não criminais. Exemplo, se alguém estiver estuprando uma pessoa dentro do campus, a polícia não tem que ligar para reitoria avisar “tô indo aí”, não tem essa obrigação. Está sendo cometido um crime. A polícia vai e age, porque ali também é um território brasileiro.”

É curioso como estudantes universitários confundem a seu bel prazer o significado de autonomia universitária. Vale tudo para defender o indefensável. O raciocínio deve girar em torno da liberação da maconha, então os termos devem se encaixar a essa intenção. A pergunta que fica é se, após o superintendente ter desenhado que autonomia universitária não é sinônimo de “posso fazer o que quiser na universidade”, os estudantes irão entender que atuação da polícia não fere a tal autonomia…

Agora o ponto X da confusão toda. Reparem na pergunta, que segue a tendência do artigo anterior de tentar minimizar os fatos por causa da pouca quantidade de maconha:

“Para uma pequena quantidade de maconha, cinco alunos detidos, quatro policiais feridos e pedidos de esclarecimentos do MEC ao Ministério da Justiça. Ainda assim a ação é considerada bem sucedida?

 

S: Bem sucedida! O conflito que sucedeu as negociações não ocorreu em virtudade do objeto. Poderia ter 500 kg de cocaína ou duas trouxinhas de maconha. Só houve conflito porque as pessoas impediram a polícia de realizar o seu trabalho, de cumprir a lei. Não tem que fazer essa relação de proporcionalidade. A polícia obviamente se preocupou no uso moderado da força. Sem as autoridades, o Estado fica refém. É preciso deixar claro que as pessoas que lá estavam não eram manifestantes. Lógico que a manifestação é constitucional, é lícita; manifestar contra a corrupção, manifestar contra a liberdade da maconha… isso é um debate que está na sociedade.


Na resposta acima, o superintendente matou a cobra e mostrou o pau. Não tem que fazer relação de proporcionalidade. O que estava em jogo não era a quantidade de maconha, mas a obstrução do trabalho da polícia, porque o fato é que tinha maconha, mas os estudantes não queriam deixar o rapaz ir assinar o termo circunstancial conforme prevê a lei. Se houve conflito, a culpa não é da polícia, que possui o DEVER de cumprir a lei e estava fazendo seu trabalho, mas dos estudantes que tentaram impedir o trabalho policial (isso ficará mais claro em uma outra matéria).

Esquerdista, contudo, possui dificuldade em entender o que é “cumprimento da lei”. É possível perceber que a referência deles não está na lei e/ou na ordem, mas no objetivo de legalizar a maconha na base do “eu acho que deve ser legalizado, então tem que legalizar”. Não é assim que funciona uma democracia. Não é à toa que confundem “autonomia universitária” com “a universidade tem poder para tirar a polícia do campus” (uma forma indireta de liberar a maconha no campus).

Por conta da afirmação de que os estudantes pró-maconha não eram manifestantes, a pergunta seguinte pode ser lida como um espanto, o que mostra a dificuldade de compreensão de coisas que, para um universitário, deveriam ser básicas:

“Se eles não eram manifestantes, eram o quê?”

 

S: Eles estavam resistindo ao cumprimento da lei. Estavam praticando crimes, independentemente de ser na UFSC. se a polícia vai ao Mercado Municipal e pega um traficante, aborda uma pessoa que está em situação suspeita e faz a prisão dessa pessoa, tem que ser encaminhada a autoridade policial. Se pessoas ali se juntam, evitando que o sujeito seja trazido para cá, a situação é a mesma. Estão resistindo a uma ordem da autoridade, no cumprimento da lei, cometendo crime de resistência.”

Lembrando que para a vice-reitora, foi uma reação normal…

Mais adiante, outra pergunta desaforada, bem ao estilo vitimista para tentar vender que os policias é que foram malvados:

“Bomba de gás lacrimogêneo, bomba de luz e som, balas de borracha: isso é um violência moderada?

 

S: Com certeza. Mesmo porque se uma pedra daquele tamanho acerta a cabeça de um policial, o mataria.

Com dois carros depredados, não dá para acreditar na versão de que os alunos estavam negociando na paz, mas os policiais malvados chegaram metendo o terror em todo mundo… Aliás, o quadro por parte dos estudantes será esclarecido em outra matéria.

As duas páginas seguintes foram preenchidas com a entrevista da reitora Roselane. Antes da entrevista, foi explicado o roteiro para consegui-la. Tentaram uma entrevista presente, mas foram enrolados pela reitoria. No final, a entrevista, ao contrário das outras, não foi feita pessoalmente, mas respondida por escrito pela reitora passando pela triagem de assessores.

Na entrevista, a reitora usou um tom conciliador. Disse ser favorável à luta contra o tráfico de drogas, destacou a importância do trabalho da polícia, afirmou a necessidade de debates junto a toda comunidade… Em suma, ela foi bastante política. O título da matéria traduz bem o tom da entrevista: “é hora de evitar atritos”. Se houve uma parte da entrevista que chamou a atenção foi esta:

“Como a reitora avalia o desgaste que a UFSC sofreu perante à comunidade, perante o Brasil?

 

R: Claro que houve um desgaste à imagem da USC, sobretudo na medida em que a instituição foi acusada injustamente em rede nacional. Nossos professores, técnicos, e estudantes desenvolvem trabalhos muitos relevantes, que ajudaram a fazer da Universidade uma instituição de referência nacional e internacional. No passado recente, já se tentou imputar uma imagem equivocda da instituição, com reportagens sobre o consumo de drogas no campus. É preciso destacar as muitas moções de apoio à UFSC e/ou ação de repúdio a ação ocorrida no campus. Até hoje, 08 de abril, recebemos notas do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (SJSC) e Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Direção da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina (FAED/Udesc), Sintufsc, Pós Graduação de Antropologia Social, Memorial dos Direitos Humanos da UFSC, Núcleo Catarinense de Associação Juízes para a Democracia, Andes – SN, Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra [MST], Colegiado do Núcleo de Desenvolvimento Infantil da UFSC, sem contar uma moção assinada por professores de diversos centros de ensino da Universidade. Estamos todos trabalhando pra reverter isso em diversas instâncias. O apoio de entidades tão representativas é essencial.

Os estudantes de fato desenvolvem trabalhos relevantes, mas também é fato que há estudantes que adoram invadir reitoria e “brincar” de ser revolucionário. A reitora também respondeu que várias instituições, esquerdista em sua maioria, enviaram moções de apoio à UFSC e contra a ação ocorrida no campus. Fica a dúvida: a qual ação ela se refere? A invasão da reitoria pelos maconheiros ou a ação da polícia devido à resistência do estutantes de querer o cumprimento da lei? Pelas instituições da nota, é, infelizmente, mais provável que o apoio à UFSC signifique apoio à tentativa de se tentar proibir o trabalho da polícia no campus. Ao invés da reitoria ficar de mimimi de que “estão querendo manchar a imagem da universidade”, que ela pare de tomar ações vergonhosas como a nota oficial de repúdio a ação da polícia. Pois é covardia querer incitar o crime e depois se esconder por trás dos trabalhos relevantes prestados por professores, técnicos e estudantes. Nota de apoio oriundo de instituições pró-bardena mais prejudicam a imagem da universidade.

Na página 7, o relato do que ocorreu no dia do confronto contra a polícia. Título: “25 de março: o dia em que a UFSC virou campo de batalha”.

A matéria começa contando a história dentro da sala de aula de um professor que estava dando aula para um calouro quando, de repente, um aluno do CFH interrompe a aula para falar urgente com o professor. Pouco depois compartilha a informação com a sala inteira: “Gente, a Polícia Federal pegou alunos com maconha no bosque, o pessoal tá segurando os carros para não levarem eles, e precisamos de ajuda”. Ou seja, aqui temos novamente o motivo do conflito: resistência ao trabalho da polícia. Não queriam deixar o rapaz ir assinar o termo circunstancial.

“Por volta das três horas da tarde de terça-feira (25), cerca de 30 pessoas rodeavam dois carros no bosque – um Astra prateado da polícia, descaracterizado, e uma caminhonete da segurança da UFSC. O grupo gritava “não vai sair! não vai sair!”. Na caminhonete estava um dos estudantes detidos por portar maconha. […]

Os estudantes gritavam: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!”

[…] A caminhonete servia de palco para falas: “A gente tá aqui pra dizer que a polícia militar não entra no campus!”

O interessante dessa matéria é que visivelmente se montou todo um ambiente de hostilidade contra a polícia, obstruindo seu trabalho de levar o maconheiro flagrado para assinar o termo circunstancial. Mesmo a matéria mostrando esse quadro, pinta o professor Paulo Machado (sim, o que foi tratado lá no início) como um negociador. A cara de pau e o cinismo é tanto que relatou a matéria:

“O diretor do CFH, Paulo Machado, insistia com o delegado: “Quero fazer um apelo pro senhor, de coração, para que não haja um incidente de grandes proporções aqui”. Cassiano [delegado da PF] negou novamente [a tentativa de acordo]. Deu as costas e chamou o Choque.”

Dá a impressão que o Choque foi chamado porque a polícia cansou de negociar, mas o quadro estava claro: a hostilidade contra a polícia era tremenda! Tanto que do conflito seguiram para a invasão da reitoria e fizeram pressão para que a reitora assinasse um termo de compromisso que pedia o banimento da polícia no campus. Machado, como se percebe, é um cara de pau! Se ele queria de coração evitar um incidente de grandes proporções, deveria ter tentado acalmar o ânimo de seus alunos e colegas de trabalho, deixando a polícia fazer o seu trabalho! O coração do diretor do CFH certamente que existe, mas como diria Chesterton, ele está no lugar errado. O coração dele pertence à maconha. Tendo em vista isso, o apelo cínico do professor passa a fazer mais sentido.

Eram 300 estudantes impedindo que o rapaz fosse levado até a polícia para assinar o termo. Era óbvio que precisavam ser dispersados para que o encaminhamento fosse concluído. Se o coração do professor estivesse no lugar certo, ele pediria para os alunos abrirem o espaço. Não fez isso porque, ao contrário do teatro e como bem mostra o contexto hostil dos alunos, ele almejava a baderna para depois posar de vítima incompreendida.

Na parte 2, tratarei das matérias referentes ao episódio da ocupação da reitoria.

Fonte: http://institutoshibumi.org/augusto/2014/04/comentarios-a-partir-do-jornal-zero-da-ufsc-parte-1.html

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