O comunismo é fantasia, o capitalismo a realidade

Aluna escreve trabalho acadêmico dedicado a João Victor Gasparino  

Acadêmica: E. M. A. C.*

Aproveitando o debate público sobre a doutrinação marxista nas universidades brasileiras – despertado pela carta-manifesto de João Victor Gasparino –, deparo-me com mais um autor fazendo uma forte crítica ao capitalismo e ao mundo globalizado. Nossos colegas acadêmicos não têm nem mais a oportunidade de conhecer os “dois lados da moeda” dentro da sala de aula. Marco Aurélio Nogueira, admirador da revolução cultural gramsciana, não esconde sua parcialidade ao tratar da economia.

Para Gramsci, a implantação do comunismo não deve acontecer através da força, como foi a luta armada na Rússia, mas sim de forma pacífica e gradual. “O trabalho da classe revolucionária deve ser, primeiramente, político e intelectual.” (Anatoli Oliynik, em “A Tomada do Poder – Gramsci e a Comunização do Brasil”).

É criada uma mentalidade uniforme em torno de determinadas questões, fazendo com que a população acredite ser correta esta ou aquela medida – é isso que está acontecendo na educação, o padrão MEC forma “críticos” que pensam iguais –, de modo que quando o comunismo tiver tomado o poder, já não haja qualquer resistência.

No Brasil, não foi diferente. Os militantes não pegam mais em armas. Eles atacam por outro lado. São membros do governo, ecologistas, professores, comentaristas da mídia, líderes religiosos e integrantes de ONGs, muitos ainda financiados pelo governo ou até por organismos internacionais.

O autor do livro Um Estado Para a Sociedade Civil, Marco Aurélio Nogueira, não passa de um intelectual orgânico, assim como Emir Sader e Marilena Chauí. Tal expressão foi criada por Gramsci para qualificar o militante marxista que atua na cultura e no magistério. No livro As Falsas Bases do Comunismo, Pereira afirma que “quem ler qualquer revista ou jornal, ou livros acadêmicos (da USP, da UFPR, da UNICAMP) não demorará muito até encontrar frases do tipo ‘a exploração dos trabalhadores pelos capitalistas’ ou ‘o capitalismo baseia-se na exploração de uns pelos outros’”. 

Adam Ferguson, em 1767, em seu Ensaio Sobre a História da Sociedade Civil, utilizou pela primeira vez a denominação “Sociedade Civil”, se referindo sobre as virtudes do homem na “sociedade civilizada”, em oposição ao homem isolado e bruto. Como administradores públicos, percebemos que deve haver uma sociedade civil organizada, engajada, comprometida, cívica e que fortaleça seu capital social. Infelizmente, para Gramsci, é através da Sociedade Civil, em sua “guerra de posição” nos estados democráticos modernos, que irá levar esses países à conquista do socialismo, deturpando, assim, a importância da participação popular.

Segundo Nogueira, o capitalismo e a globalização contribuem para a dizimação de recursos humanos duramente acumulados, corroí vínculos de lealdade no interior das empresas, gera medo e insegurança entre os trabalhadores, desgasta seus sindicatos e sua vida associativa. É muito fácil culpar os males da sociedade do capitalismo e do neoliberalismo sem apresentar fatos concretos. Ainda mais numa sociedade já doutrinada a odiar o imperialismo americano. Vejamos, então, a definição do capitalismo: quando se investe num capital e depois utiliza parte dos lucros para reinvestir. Von Mises trata como o sistema econômico em que a produção é feita em massa e o mercado organiza as relações econômicas.

Nogueira traz de forma estrondosa os estragos e tragédias acumuladas pelo capitalismo. Mal sabe ele que é o capitalismo que tira as pessoas da miséria. De acordo com o professor do curso de Relações Internacionais do Ibmec-MG, Diogo Costa, os pobres precisam de mais capitalismo, pois precisam de mais produtividade para que suas atividades profissionais agreguem mais valor à sociedade. Precisam de mais empreendedorismo, para que consigam transformar suas ideias em negócios e de mais comércio, para que interações econômicas voluntárias sejam mutuamente benéficas.

Nogueira, seguindo a linha de Karl Marx, aposta na autodestruição do capitalismo. Porém, a obra de Marx nada tem de científica. Marx não se interessava na busca da verdade, apenas tentava encontrar informações para se adequar às teorias já definidas por ele. Conforme o economista Schumpeter, que fez uma análise cuidadosa sobre Marx, o marxismo é uma religião e Marx era uma espécie de profeta. Paul Johnson fez uma análise detalhada da não cientificidade marxista na obra Os Intelectuais. Vejamos um exemplo: Marx utilizava casos de décadas atrás para mostrar uma suposta consequência nefasta do capitalismo, sendo que o próprio capitalismo tinha feito tal situação desaparecer; ou escolhia indústrias no qual as condições de trabalho eram ruins, como sendo típicas do capitalismo. Contudo, esses casos específicos eram nas indústrias onde o capitalismo não tinha dado o ar de sua graça, e as firmas não tinham condições de implantar máquinas, por falta de capital. Keynes também considerou O Capital como um livro obsoleto, cientificamente errado e sem aplicação no mundo moderno.

Nogueira afirma que “as reuniões do Fórum Social Mundial, as ações ecológicas e ambientalistas, a proliferação de associações e movimentos antiglobalização, o rápido crescimento da cibermilitância, possível graças a ampla difusão da Internet, tudo foi mostrando que homens e mulheres, grupos e classes sociais, ainda que num cenário dramaticamente condicionado pela ação de poderosos conglomerados e organizados sob a forma de um ‘império’, agitam-se e mexem-se sem cessar.” Isso, segundo o autor, impulsiona a disposição cívica de quem quer lutar por um “outro mundo”. Eu fico me perguntando, que mundo? Aquele tomado pelas garras do comunismo? Não sei se vocês percebem a contradição, mas a Internet faz parte da globalização que o autor tanto rejeita.

Claro que o esperto autor, não poderia deixar de falar naquela palavrinha que tanto fascina a esquerda no Brasil: a democracia. Esse pessoal luta pela democracia usando a camiseta do Che Guevara, um genocida que não tinha nada de democrático. Na verdade, na mente revolucionária, a democracia é só o processo jurídico das eleições. Afinal, como vai existir democracia num Estado inchado e que almeja controlar tudo?

Para Nogueira, o projeto democrático vai além das determinações liberais da democracia e dos mecanismos da representação política. Trata de tornar viável o governo do povo a partir de regras procedimentais válidas para todos e de arranjos institucionais que facilitem a livre competição política e a participação ampliada nos processos de tomadas de decisões. Um governo que se diz “democrático” de esquerda vai criar condições de participação para quem está do seu lado. Afinal, como vai haver um debate se não há liberdade? Estes governos tendem a cada vez mais interferir e controlar a esfera privada.

Sem dúvidas que os cidadãos ativos são personagens vitais de democracia, contribuem para o civismo, a participação e o fomento do capital social. Contudo, o autor afirma que devem ser constantemente “criados” e “organizados”. Do que adianta serem criados e organizados para pensar conforme tal ideologia do Estado?

Nogueira se mostra complacente com os pobres, enfoca o lado “social” e culpa o capitalismo por ser agressivo, predatório da natureza, incapaz de produzir, ao mesmo tempo, progresso técnico e padrões superiores de vida coletiva. Rodrigo Constantino, porém, chama a atenção a esse abuso do adjetivo “social”. Isso, no fundo, é deixar uma paixão antissocial falar mais alto: a inveja, por trás da máscara da maioria dos combatentes das “desigualdades sociais”. Pois bem, o foco de quem realmente se preocupa com os mais pobres deveria ser a pobreza em si, não as desigualdades. De acordo com Constantino, quem pretende acabar com as desigualdades está mirando apenas na relação entre ricos e pobres, ignorando que os pobres melhoram de vida se os indivíduos puderem ficar ricos. Ele cita um exemplo: “Se antes o meu transporte era uma carroça e agora posso andar de carro, não importa se meu vizinho tem uma Ferrari. Minha qualidade de vida melhorou, meu conforto é maior, graças ao capitalismo”.

A volatilidade financeira, o abandono de investimentos sociais e as medidas recessivas que causam o desemprego seriam as maiores fontes de insegurança associadas à globalização e ao capitalismo, afetando os países pobres principalmente. De acordo com o economista Rodrigo Constantino, é justamente o acúmulo de capital (diga-se, sistema capitalista) que permite o enriquecimento dos mais pobres. Toda nação que enriqueceu passou por esse processo, pois o acúmulo do capital permite os investimentos produtivos que geram emprego e renda.

Não posso deixar de destacar a conclusão de Rodrigo Constantino: “A triste verdade é que muitos não querem ensinar ou estudar, e depois competir no livre mercado, pois isso dá muito trabalho. Muito melhor pegar uma camisa do Che Guevara, um megafone, subir em carros e ficar gritando bravatas. Alguns chegam até ao Congresso, ao Senado ou mesmo à Presidência agindo assim!”.

Nogueira critica a desigualdade e os desníveis brutais de renda que irrompem onde antes havia padrões invejáveis de equidade (Aonde?). Ele ainda afirma que é impossível imaginar um crescimento econômico sustentável sem investimentos regulares, expressivos e permanentes no social. Para mim, o melhor programa social continua sendo um emprego. Há um senso comum que disparidade num país é fruto de alguma injustiça e por isso os impostos devem fazer a redistribuição. É preciso cuidar com as falácias. Segundo George Gilder, os impostos elevados e progressivos, subsídios, barreiras protecionistas, bolsas e esmolas estatais, privilégios, são as bandeiras dos gananciosos, incompatíveis com a moralidade do capitalismo. Didaticamente, a economia não é jogo de soma zero, onde José, para ficar rico, precisa tirar de Pedro. A razão pela qual o capitalismo funciona é por que a riqueza é um subproduto das mentes mais criativas e inovadores, dos empreendedores que decidem onde investir, onde alocar os recursos escassos da melhor forma.

Isso não significa que não devemos pensar no outro. O poeta Ferreira Gullar, que teve longa participação na esquerda, reforça a ideia que mesmo os esquerdistas apoiam o capitalismo. Afinal, “o que o capitalismo tem de bom é que ele estimula a produção de riqueza e isso pode ajudar a melhorar a vida das pessoas, mas desde que não se perca a noção de que o sentido da vida é o outro”. Nós enxergamos o outro a partir do momento que temos valores – e esses valores estão no cerne da família, de uma educação livre e tradicional – e não pela imposição do politicamente correto.

Nogueira traz a definição de Martín-Barbero sobre a globalização: “processo que é ao mesmo tempo um movimento de potencialização da diferença e da exposição constante de cada cultura as outras, de minha identidade aquela do outro. Isso implica um permanente exercício de reconhecimento daquilo que constitui a diferença dos outros como enriquecimento potencial da nossa cultura, e uma exigência de respeito àquilo que, no outro, em sua diferença há de intransferível”. No entanto critica a ocidentalização do mundo, afirmando que o Ocidente não integra nem universaliza, mas como dizia Nietzsche, não se destrói completamente senão aquilo que se substitui.

O autor ainda apresenta a situação atual como baseada numa aceleração de tempo e de mudança do ritmo de vida. Devido a extensão dos novos sistemas de comunicação, como o acesso a informação e o avanço da tecnologia, que transformam radicalmente o espaço e o tempo, surge a cultura da virtualidade real, no qual o faz de conta vai se tornando realidade. Nogueira relaciona tal circunstancia com uma dinâmica “desterrorializada” que passa a conviver com a “territorialidade” dos Estados nacionais e da democracia liberal, pois segundo ele, até então a questão da democracia sempre esteve vinculada ao Estado nacional e ao território.

Há um ponto, no entanto, que eu tenho que concordar com o autor, nós estamos num processo em que o velho e o novo se misturam. Mudanças, resistências e reiterações se superpõem, tornando arriscada qualquer análise de longo prazo.  E digo mais, há duas ideologias se confrontando, a luta já começou.

 Nota 1: Professora, meu manifesto não é direcionado a sua aula (que é dada de uma maneira imparcial), mas sim do meu profundo descontentamento com a doutrinação marxista na Academia.

Nota 2: A carta do aluno e amigo que me motivou a fazer tal crítica a ideia de Nogueira é esta.

Nota 3: O estudante e meu amigo João Victor Gasparino em momento algum disse que não devia estudar Marx. Apenas quis se manifestar contra a doutrinação no socialismo, ou seja, a revolução gramsciana pela cultura, o que inclui as universidades e o uso do ensino como um meio para fazer a revolução socialismo.

*E. M. A. C. é aluna da UDESC e preferiu manter anonimato.

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