O “homem médio” conservador

 Noeli Maria Sangiovo 

Dentre os “homens médios” (de mente revolucionária), os que mais me intrigam são os ditos ‘conservadores’. A massa, antes de tudo, é um “fato psicológico.”

Em seu célebre livro Rebelião das Massas, Ortega y Gasset descreve o homem massa (homem médio), destacando que ele sente-se no direito de diminuir a minoria economicamente e intelectualmente destacada à sua mediocridade.

As características do homem massa descritas na obra independem da posição em que ele se coloca, pode até mesmo encontrar-se dentro de uma posição conservadora. No entanto, para o homem massa ser homem massa, basta sê-lo: “Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam, mas não como multidão”, a massa, antes de tudo, é um “fato psicológico” sem haver, inicialmente, aglomerações. Uma busca, a priori individual, a uma solução para o problema: na práxis, o problema é identificado e, ignorando a história e a veracidade dos fatos, busca uma solução. O equívoco quanto as manifestações de rua de certos ditos “conservadores” contra o Foro de São Paulo é um exemplo vivo disso, não há tentativa de entender o Foro de São Paulo como faz Graça Salgueiro (na íntegra http://www.midiasemmascara.org/mediawatch/noticiasfaltantes/foro-de-sao-paulo/14345-uma-nota-sobre-o-foro-de-sao-paulo-.html) que pertence a minoria de que fala Ortega y Gasset: “as massas tornam-se indóceis diante das minorias; não lhes obedecem, não as seguem, não as respeitam, mas, pelo contrário, as puseram de lado e as suplantam.”

A tentativa de retornar ao passado com tudo que ele comporta, é similar a tentativa de superá-lo (até mesmo o passado mais recente), não pode haver um retorno a Idade Média, por exemplo, querer que a história volte a ser o passado medieval, exatamente como era é negar a fatia mais recente da história a ser compreendida (de pelo menos 150 anos, como indica Olavo de Carvalho). Negar uma parte da história na tentativa de superá-la, é negar a própria realidade que constitui o presente. Ortega y Gasset trás o seguinte exemplo de negação da história pelo homem médio: “Quem se declara anti-Pedro não faz, senão declarar-se partidário de um mundo onde Pedro não existe. Mas isso é precisamente o que acontecia ao mundo quando ainda não havia nascido Pedro. O anti-pedrista, em vez de colocar-se depois de Pedro, coloca-se antes e retrocede toda a película à situação passada, ao cabo da qual está inexoravelmente o reaparecimento de Pedro.” E ainda: “todo anti não é mais que um simples e vazio não”. Negar a veracidade da história é colocar-se acima dela, elaborando uma história que não existiu na realidade, ocultando os fatos. E não querer compreender a história e sair manifestando-se nas ruas também é negá-la.

Ao cultivar o conservadorismo não ideológico, que possibilita perceber a realidade ao invés de, a priori, negá-la, consideramos ainda princípios que a constituem para que, ao nos depararmos com a história na íntegra, possamos “ver se conseguimos escapar dela, não recair nela”.

Falta essa percepção aos conservadores, entender que “não é mais nem menos massa o conservador que o radical; e esta diferença não impede nem de longe que ambos sejam um mesmo homem, vulgo rebelde.” O conservador busca a compreensão quanto aos fatos e sua veracidade, busca agir de forma prudente, o “homem médio” conservador, vulgo revolucionário, recorre ao ideologismo da práxis para buscar uma solução, geralmente imediata.

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