O monstro Frankenstein anda em torno de nós, e não o notamos

Leo Daniele

O Pe. Anthony Brankin, desenhista, pintor, escultor, orador e atualmente pároco da igreja de Santo Odilon, em Berwyn, Illinois (USA), concedeu entrevista à revista Catolicismo [1] sobre o culto à feiura no mundo moderno. Ele assevera: Não pretendo mencionar cada caso possível de feiura na nossa sociedade atual. Isso seria fatigante, quando não simplesmente desalentador. Vivemos de fato imersos numa cultura incrivelmente feia; não podemos escapar disso. Meu propósito é manter as pessoas atentas quanto ao real perigo de não perceberem a feiura, nem de se darem conta da verdadeira destruição que ela opera em suas almas.

Muitos pensam como ele a respeito. Mas, desde a infância, estamos acostumados com a arte moderna e, segundo reza um provérbio, “quem cultiva cebolas não sente mais seu odor”. Falta coragem ou reatividade para contrariar uma opinião ‒ ou um hábito mental ‒ dominante.

Não devemos nos acostumar com essa terrível circunstância em que vivemos, cedendo à lei do menor esforço e, por preguiça de reagirmos interiormente, passamos a considerar normal a feiura da cultura que nos cerca. É o que pensa o sacerdote:

De fato, o culto da feiura é tão penetrante, nos cerca tão completamente e preenche todos os interstícios de nossa vida, que corremos a cada momento o risco de não analisá-lo e deixar, assim, de rejeitá-lo.

A arte moderna invadiu até nossas igrejas, e em muitos lugares, Frankenstein posa ao lado de santos de nossa devoção. Prossegue o sacerdote:

Poder-se-á pensar que, ao menos no domingo, seríamos poupados de toda essa feiura visual e espiritual indo à igreja. Mas a feiura também lá está, pois, possivelmente, sua igreja já foi despojada pelos modernos bárbaros católicos, que não possuem sequer senso artístico. O senso remanescente de beleza em nossas mentes e corações, pelo qual ainda podemos reconhecer a feiura existente, tanto em edifícios como na filosofia ou na vida, deve ser alimentado e protegido como a nossa última arma na batalha com o “Não-Deus”.

Tragicamente, nosso mundo não reconhece sequer o que é o feio. A beleza é aquilo que quando visto agrada e, portanto, o lógico seria que o feio fosse aquilo que, quando visto, desagrada. Mas olhem para a nossa sociedade, na qual o que agrada é o macabro, o esquisito, o torto e o deformado;

Olhe para as nossas igrejas e catedrais mais recentes. Muitas delas são atordoantes e terríveis. Não pela homenagem à tradição e ao senso católico de beleza. Elas são atordoantes e terríveis na sua total desumanidade, na sua falta de proporções completa e horrenda, na sua minuciosa e total esterilidade. Não há um ângulo que agrade ou um arco que conforte. Nem sequer um pedaço de moldura que nos contenha em sua sombra.

Dr. Plinio ensina em sua obra “Revolução e Contra-Revolução”: Quanto às artes, como Deus estabeleceu misteriosas e admiráveis relações entre certas formas, cores, sons, perfumes, sabores, e certos estados de alma, é claro que por estes meios se podem influenciar a fundo as mentalidades e induzir pessoas, famílias e povos à formação de um estado de espírito profundamente revolucionário. Basta lembrar a analogia entre o espírito da Revolução Francesa e as modas que durante ela surgiram. Ou entre as efervescências revolucionárias de hoje e as presentes extravagâncias das modas e das escolas artísticas avançadas. [2]

A objeção vem de onde não se esperava:

Nessa matéria, encontrei sempre, em alguns, uma espécie de pouco caso, uma coisa assim como quem diz: “Não, o importante é a gente não pecar contra a castidade, cumprir os mandamentos. Essa história de ambientes revolucionários é um fundo de quadro, mais ou menos científico, que querem inserir no assunto, mas que para efeitos práticos não é preciso tomar em consideração”.

Ora, tem-se que tomar em consideração. Por quê? Porque o espírito de qualquer ambiente revolucionário diz diretamente respeito ao 1º Mandamento, ao amor de Deus. É algo que quebra, que prejudica o amor de Deus. O amor de Deus é o meio que temos para nos santificarmos, é o modo pelo qual tomamos energia para o cumprimento dos outros mandamentos, é o que dá até valor ao cumprimento deles, porque o mandamento que não for cumprido por amor de Deus não vale nada. Uma debilidade no Primeiro Mandamento debilita todo o resto, e tira ao apostolado sua fecundidade. [3]

Para terminar, remata João Filgueiras Lima, o amigo de Niemeyer:

A moda “cria essa linguagem, até mesmo para os prédios. Eles têm de se vestir daquela forma, todos iguais, para ficar na moda. E os arquitetos, para sobreviver, vão a reboque dessas pressões. Então são indiretamente culpados. Mas a sociedade também manda. Estamos em um ciclo vicioso.

O arquiteto acrescenta:

Você adensa áreas e cria problemas em outras. Imagine um corpo humano, todos os órgãos têm de estar integrados. De repente alguém diz ‘ah, vamos fazer aqui um coração enorme!’ Não adianta, o peito vai estourar porque o coração é muito grande […] O arquiteto deveria ser o clínico da cidade. No entanto, não tem uma visão global e as obras viram um Frankenstein. A cidade é o maior Frankenstein de todos.[4]


[1] Número 746, fev. 2013.

[2] Capítulo IV, 1.

[3] Sem data.

[4] OESP, 14-3-2013.

Fonte: http://ipco.org.br/home/noticias/o_monstro_frankenstein

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