A sacralização do crime e da subversão na América Latina

charge alexCristian Derosa
Alex Pereira

Embalsamado e exposto em um museu militar tal como Lênin, Mao Tse Tung e Ho Chi Minh, Hugo Chávez se torna parte do panteão revolucionário latino-americano e integra o imaginário das ditaduras mais sangrentas da história. Mas diferente da velha idolatria totalitária de tom militarista que marcou o século XX, o socialismo do século XXI tem se valido também de um elemento especial, o das novas espiritualidades.

A religiosidade na América Latina sempre teve as suas peculiaridades devido o entrelaçamento de culturas e cultos religiosos, fato que costuma ser lembrado na defesa de uma pluralidade religiosa e liberdades de culto. Ocorre que em muitos casos essa relação entre as diferentes religiosidades não tem nada de plural, tampouco estimula a liberdade. A mistura entre cristianismo, espiritismo com ritos afros e orientais, além dos cultos indígenas, tem gerado uma espiritualidade coletiva que abarca todas essas diferentes crenças e tem tornado fértil o terreno para a legitimação religiosa de ações políticas revolucionárias.

O culto dos santos profanos ou populares tem crescido nos últimos 15 anos na Venezuela, durante o governo de Hugo Chávez. O ambiente de pobreza, miséria e violência acabou por gerar uma nova fé onde criminosos mortos são erguidos à condição de santos milagreiros e adorados pela população. É a chamada Corte Colé ou Corte Malandra.

Entre os fiéis dessa fé marginal, a maioria é composta pela população carcerária do país, que busca nessas figuras populares o alívio e a justificação de suas vidas destruídas.

O principal “santo malandro” é Ismael Sanchez, com sua imagem de óculos escuros, uma pistola na cintura, montado sobre uma motocicleta de 1000 cilindradas, são os elementos dos simbolismos peculiares destes santos bandidos. Outros dos membros da Corte Calé como Malandro Pelón, Miguelito, Malandra Isabel, El Ratón, Petróleo Crudo, Tomasito, Malandra Elisabeth e El Loko Machera são parte do crescente panteão às avessas da pseudo-espiritualidade venezuelana. As oferendas são colocadas nos túmulos, especialmente as coisas que eles gostavam em vida como comida, cigarro, dinheiro e drogas.

Segundo o sociólogo Túlio Hernández, os santos malandros foram uma maneira encontrada pelos setores populares envolvidos na violência e miséria venezuelana, de cicatrizarem as profundas marcas deixadas pelas mortes e tragédias ocorridas nesse período revolucionário chavista.

Além dos bandidos anônimos, há também os bem conhecidos que são cultuados como santos nos locais em que viveram ou morreram. É o caso do líder revolucionário Che Guevara, na Bolívia, e o famoso narcotraficante Pablo Escobar, na Colômbia. Venerado principalmente na sua cidade natal, Medellín, San Pablo Escobar, como é chamado por seus seguidores, possuí imagens colocadas em altares junto com Jesus e Nossa Senhora, para o pedido de intervenções e milagres.

O paternalismo criado por Pablito gerou um ciclo vicioso que reflete hoje em dia na fé do povo e na sua crença como um santo milagreiro. A ideia de que ele viciava os ricos para dar dinheiro aos pobres é uma das maneiras criadas para justificar a crença em El Patrón. O livro “El verdadero Pablo”, com as confissões de seu principal guarda costas, apelidado como Popeye, descreve uma trama de relações do rei da Coca com o ex-presidente Manuel Noriega, o atual presidente sandinista Daniel Ortega, com Raúl e Fidel Castro, chegando ao famoso escritor Gabriel Garcia Marques. O líder do narcotráfico começou como pobre ladrão de lápides de cemitérios, chegando acumular aos 44 anos US$ 3,5 bi, uma frota de aviões, 200 apartamentos em Miami, um zoológico e se dispondo pagar a dívida externa da Colômbia. Um verdadeiro milagre satânico.
O caso de Pablo Escobar é paradoxal, pois ele sempre foi estimado como Robin Hood dos pobres colombianos, mas em vida, El Patrón era tido pela revista Forbes como um dos dez homens mais ricos do mundo.

Do mesmo modo, o culto à mítica figura de Che Guevara, criada pelo movimento revolucionário internacional, foi absorvido na região onde ele foi assassinado. Jean Paul Sartre chegou a dizer que Che foi o mais completo ser humano de nossa era. Uma profecia auto-realizável de Sartre, que se concretizou entre as localidades de La Higuera e Vallegrande, e onde é possível encontrar dentro de uma capela um altar com a imagem de Che Guevara. Segundo os adoradores, ele opera milagres. A cena do corpo sem vida do guerrilheiro, após sua execução, foi mitificada ao ponto de ser comparada com a de Cristo aos pés da Cruz do Calvário. Frases como “Ernesto, tu lucha es el camino” ou “Tú vives por siempre, comandante amigo” decoram as paredes do pequeno povoado onde a lenda de “San Ernesto” nasceu, sendo o local rebatizado de La Higuera del Che, onde as cruzes e figuras católicas contrastam com as imagens de Guevara.
Mais ao sul, na terra natal de Che, o culto aos bandidos também conta com seu representante. O argentino Gauchito Gil, um ladrão de gado que acabou sendo morto pelas autoridades locais, alimenta a lenda de um santo milagreiro venerado principalmente por criminosos que buscam proteção e inspiração. Em muitos casos, os ladrões que veneram Gauchito ascendem velas antes e depois dos crimes para assegurar êxito e evitar serem presos.

No outro extremo da América Latina, no violento noroeste mexicano, a adoração de Jesus Malverde, o “santo dos narcotraficantes”, cresce em meio ao clima de guerra civil, num sincretismo entre fé tradicional católica e os cultos ancestrais mexicanos. Pobres e ricos da industria do tráfico se reúnem, assim como políticos, esportistas, empresários e populares, rendendo homenagens, e pedindo ou pagando promessas pelos sucessos atingidos. Serenatas são tocadas por mariachis em agradecimento a El Bandido Generoso, pelas colheitas abundantes de papoula ou maconha, e também na esperança de que o tráfico para o norte ocorra de maneira segura. Uma indústria significativa orbita em torno do mito de Malverde. Canções populares, imagens, bustos, pinturas, medalhas, placas e até marca de cerveja são partes dos apetrechos criados para potencializar a crença.

De acordo com a lenda, Jesús Malverde viveu no inicio de 1900 e foi enforcado pelo governador. Ele próprio não era um traficante de drogas, mas depois da morte, a fama de operar milagres atraiu a sua crença entre os pobres de Sinaloa, onde mais tarde surgiram os narcotraficantes que o tornaram seu santo padroeiro. A diocese local considera a capela de Jesús Malverde uma vergonha para a região. Os sacerdotes lamentam a glorificação de um homem que roubou e matou. Os historiadores não conseguem encontrar provas de sua existência, mas o mito perdura ao longo do tempo.

Em muitos locais, novenas em nome de Jesus Malverde são rezadas semanalmente por grupos de seguidores. As novas gerações de narcotraficantes dividem a fé entre Jesús Malverde com a Santa Muerte, e o santo católico de São Judas Tadeu. A crença em Malverde ultrapassou as fronteiras mexicanas e hoje em dia é um fenômeno muito presente no território dos EUA, onde é cultuado pelos imigrantes, principalmente aqueles que vivem à margem da sociedade. A vingança é um dos principais elementos da crença em Jesús Malverde.

Claro que o Brasil não poderia ficar de fora dessa revolução religiosa. O ícone da malandragem brasileira no mundo espiritual é o Zé Pelintra. Entidade da chamada Falange Malandra da Umbanda, Pelintra tem uma imagem típica do boêmio carioca, com terno branco e chapéu panamá. O nome é uma corruptela de pilantra, pois a entidade é considerada chefe da malandragem no além. Não existem comprovações da possível existência terrena de Zé Pelintra, mas segundo Câmara Cascudo, sua origem foi no Catimbó nordestino. Ele acaba sendo um arquétipo do malandro projetado num imaginário popular. Das diversas lendas contadas sobre sua origem, “Seu Zé” teria nascido em Pernambuco, com o nome de José Gomes da Silva. Ainda jovem foi morar no Rio de Janeiro, onde frequentou a boemia do famoso bairro da Lapa. Lá ele vivia no meio da malandragem entre jogos de azar e lutas com facas. Existem outras entidades brasileiras como Zé Pretinho, Malandro das Almas e Maria Navalha, e a lista tende a crescer. Curioso é saber que o nome Umbanda tem como provável origem uma palavra do sânscrito, bem distante da suposta origem africana.

Fenômeno historicamente explicável
Embora este fenômeno de fé marginal pareça algo novo, suas raízes estão plantadas há muito tempo na cultura latino-americana através da mescla das influências religiosas e culturais que induzem a um enfraquecimento do cristianismo e do uso político e ideológico para a disseminação de uma visão utilitária e fragmentadora da sociedade. Segundo o Pe. Luis Santamaría del Río, quando a fé cristã é ausente, a religiosidade tende a ser vista como um meio a serviço das pessoas. Sem a necessidade de códigos morais que possibilitem a mudança pela via da humildade, portanto, o que se tem é um culto populista.

O estudo do frei Boaventura Kloppenburg mostrou como as doutrinas reencarnacionistas e necromânticas do espiritismo kardecista foram apropriadas, ao longo do século XIX e XX, pela população brasileira, em especial os afrodescendentes já desterrados de suas religiões originais e influenciadas pelo pensamento maçônico-esotérico. Tanto o frei Kloppenburg quanto o historiador João Camillo de Oliveira Torres asseveram a origem espírita e européia dos cultos ditos africanos do Brasil como a Umbanda. A influência maçônica e kardecista foi, para estes pesquisadores, essencial na formação do que se conhece hoje desses cultos. Ao contrário do que se passa regularmente na mídia e até em estudos acadêmicos, há pouca evidência de origem negra, africana ou mesmo humilde. Em 1954, o frei Kloppenburg dizia:

“E não julguemos que se trata de um movimento apenas entre a gente de cor. A absoluta maioria dos “chefes de terreiros” são brancos e as tendas também são frequentadas por pessoas que vão até lá em carros de luxo ou com chapa branca (oficiais). (…) Pois vemos entre os frequentadores até gente de destacada posição social. Ministros, Generais, Senadores e Deputados são vistos em cabanas e terreiros. O próprio Governo parece fomentar esse movimento como espetáculo de valor turístico” (Boaventura Kloppenburg, 1954).

Nestas doutrinas de caráter necromântico, os mortos têm papel ativo na vida das pessoas e concede ajudas particulares. A comunicação com os mortos é popularmente entendida como uma possibilidade de negociação para o auxílio mútuo e permutas cujo conteúdo moral pouco importa. Este tipo de fé é o que Torres chama de “jeitinho brasileiro de driblar a morte”.

Portanto, as virtudes morais se tornam relativas à utilidade para se alcançar determinados objetivos. Uma das “virtudes” dos santos profanos da América Latina é a vingança. Já que possuem origem transgressora, ligados ao narcotráfico e bandidagem em geral, a vingança é um tema recorrente nas histórias desses “santos”. Assim, essas entidades também oferecem serviços vingativos pelo preço de oferendas devidas.
Mas o movimento revolucionário internacional, através do pensamento do marxista italiano Antônio Gramsci, soube utilizar esses fatores para o progresso de sua via revolucionária. As políticas sociais empreendidas pelos governos latino-americanos – maciçamente de orientação marxista e gramsciana – exploram eficientemente este tipo de contradição que cria uma fé maleável e desintegradora da sociedade, cujo resultado é a estratificação social desejada por eles.

Ocorre que, no propósito da formação de uma consciência proletária, o gramscismo encontra um obstáculo: a religião. Para Gramsci, a Igreja Católica é vista como inimiga irreconciliável do comunismo, pois ela integra elementos comuns a toda a sociedade, chegando a toda a população, tanto urbana quanto rural, pobres e ricos. A doutrina católica, segundo o comunista italiano, é formada por princípios gerais e pode ser entendida por todos. Neste sentido, conforme a descrição do historiador Carlos Azambuja, “Gramsci chegou à conclusão que uma das chaves da sobrevivência do catolicismo ao longo dos séculos foi o fato de que em seu seio conviveram harmonicamente humildes e elites, sentenciando que ‘a Igreja romana sempre foi a mais tenaz em impedir que oficialmente se formem duas religiões: a dos intelectuais e a das almas simples’”. Gramsci afirmou que “os elementos principais do sentido comum são ministrados pelas religiões e, por isso, a relação entre o sentido comum e a religião é muito mais íntima do que a relação entre o sentido comum e os sistemas filosóficos dos intelectuais”. Então, prossegue Gramsci, “todo o movimento cultural que tenda a substituir o sentido comum e as velhas concepções do mundo deve repetir incansavelmente os próprios argumentos, variando suas ‘formas’”.

Toda a adoração e veneração de ídolos deformados moralmente serve, portanto, à desintegração dos valores cristãos e, consequentemente, à formação de uma coletividade sedenta pela realização dos seus desejos subjetivos, facilmente preenchidos com novas virtudes revolucionárias. Tanto Lênin, Mao e Ho Chi Minh, além de Stálin, Che e agora Hugo Chávez, são líderes moralmente desprezíveis que passam a representar o máximo das virtudes revolucionárias. Como lembrou certa vez o filósofo Olavo de Carvalho, “o panteão dos ídolos do esquerdismo universal era uma galeria de deformidades morais de fazer inveja à lista de vilões da literatura universal.”

Cristian Derosa e Alex Pereira são jornalistas.

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