A religião que nos restou

Gustavo Nogy

Acreditar piamente que o resultado da soma das opiniões de milhares, de milhões de estultos, inocentes úteis ou comprometidos ideologicamente há de resultar numa escolha benfazeja e sábia chega a ser comovente.

Fonte: Adhominen
Consta que houve, em outubro último, a tal festa da democracia. Declinei do convite. Odeio festas. Gosto tanto de eleições quanto gosto de carnaval. Mas em conversa recente com amigo entusiasmado, o assunto veio à tona. Dizia-me ele – por amor à precisão: gesticulava-me ele – que a democracia era a verdadeira conquista política do Ocidente civilizado, e que o cidadão de bem deve buscar meios de “aprofundá-la” e de fazer valer seus direitos de participação, e um longo e enfadonho et cetera acerca da imoralidade dos votos nulos e brancos. Bocejos.

Ocorre que, para começo de conversa, o que ele chama de Ocidente civilizado não me parece ser exatamente o paraíso que se imagina. Ele tem lá seu conceito de civilização, eu tenho o meu; e, entre as duas liberdades de que fala Berlin, fico com a negativa: a verdadeira conquista do Ocidente cristão talvez seja precisamente o contrário do que ele pensa: há um espaço inviolável e distante da política, do jogo e da mobilização cívica que importa preservar a todo custo, e o direito de não participar – e de não ser incomodado por quem participa – é mais importante que a troca do meu voto por umas tantas promessas vazias, sejam elas factíveis ou não. Políticos são sujeitos muito ruins quando não fazem nada. Mas são ainda piores quando resolvem fazer.

De todo modo, observando pesquisas de intenção de voto, números finais e a empolgação cívica dos populares, chega-se facilmente à inevitável conclusão: a democracia representativa, definitivamente, não representa lá muita coisa que preste.

Acreditar piamente que o resultado da soma das opiniões de milhares, de milhões de estultos, inocentes úteis ou comprometidos ideologicamente há de resultar numa escolha benfazeja e sábia chega a ser comovente. Gente que se acredita politizada e crítica é, na média, mais crédula e inflexível que as Testemunhas de Jeová. Qualquer um pode se candidatar e ser votado. Qualquer um pode votar. Corintianos podem votar, imaginem. Delinquentes que encontram papéis pintados e sujos na rua e, com os papéis, sua convicção política pintada e suja, podem votar. Estão lá um número e uma sigla. Talvez uma foto. Basta. Não há nada mais a ser dito ou entendido.  E, sobre o entendimento, duas palavrinhas.

Eu, por exemplo, não entendo rigorosamente nada de zoneamento urbano e das soluções cabíveis. Pouco percebo de muitíssimos outros problemas: como planejar a economia, como tributar justamente (se é que há tributação justa), como construir mais casas populares sem tirar dinheiro dos próprios populares, como organizar a educação pública-e-de-qualidade, a segurança, os serviços de saúde e transporte, de energia, água e esgoto, o controle de zoonoses. Como contentar os estudantes da USP.

Ignoro estes e tantos outros assuntos e estou certo de que boa parte dos prezados eleitores compartilha dessa ignorância. Mas a democracia pretende ser aquele regime segundo o qual a soma de todas as ignorâncias tem como resultado uma decisão inteligente. Sujeitos que desconhecem, com rigor, um a um os problemas, miraculosamente não ignoram os meios de resolver os problemas todos, quando em conjunto. Democracia é isso. Podemos fazer as escolhas erradas, baseadas no muito que não sabemos, mas ao menos temos a nobreza de cometer livremente esses erros. Orgulhosíssimos, soltamos Barrabás e entregamos Jesus Cristo à crucificação. Damos a Deus o que é de César e a César o que é de Deus. Nem percebemos o engano. E quando a maior parte de nós, em conjunto, opta por desconhecer meticulosamente tais problemas, o candidato que escolhemos vence. Ficamos então satisfeitíssimos porque o povo, essa intangível entidade, elegeu seus representantes. É isso o que a democracia promete. Baixa o pano.

Mas o que a democracia promete, além de ruim, ela não entrega. Vejamos os números. Na cidade onde moro (poderia ser tantas outras), o candidato eleito obteve cerca de quarenta e oito por cento dos votos válidos; o segundo colocado, quarenta e três por cento, diferença de apenas cinco por cento que é superada pela soma dos votos válidos dos outros candidatos restantes. Isso apenas dos votos válidos, desconsiderados os tantos brancos, nulos e as abstenções.

O resultado é óbvio: a maioria, obviamente, não elegeu seu candidato. A maioria, nesse caso, era contrária a uma dada política representada pelo candidato eleito e respectivo partido (exército vermelho, doze anos no poder). Quarenta e oito por cento o elegeram, outros cinquenta e dois por cento o rejeitaram, e aproximadamente trinta por cento decidiram prudentemente por nenhum. A pulverização dos votos entre candidatos provoca essa anomalia: o político vencedor é, na prática, representante de uma minoria um pouco mais numerosa que as outras, apenas. Mas, analisado pelo viés da rejeição a certa política, a certo modo de se pensar a economia, o planejamento, os serviços de saúde e transporte etc, o povo, de fato, não o escolheu. Sujeitinho burro, esse tal de povo.

Como bem notou o cientista político Bruno Garschagen, o poder alquímico do voto é a superstição que nos restou, e a democracia serve perfeitamente para legitimar governos, representem ou não os governados. Não é de se estranhar que essa tão celebrada conquista cívica sazonalmente eleja, ou crie condições para que seja eleito, um salteador qualquer. Pelo povo e para o povo. “Nós podemos disputar eleição, nóspodemos brigar na eleição, nós podemos fazer o diabo quando é a hora daeleição”. Em Brasília, dezenove horas.

Falando em diabo, vitórias como as de Hugo Chavez, dos irmãos Castro, de Evo Morales, do Apedeuta da Silva e demais silvícolas nunca me surpreendem. Não pensem os liberais que tudo se resume a manipulação de votos. Nem sempre. Esse é, aliás, o erro da oposição: apostar demais na razoabilidade dos eleitores e depois se surpreender com o resultado. Eleitores não são razoáveis. São como putas: trocam votos por trinta dinheiros. Por isenção de impostos. Por rua asfaltada. Por casamentos homoafetivos. Por praças públicas.

A adoração estúpida a assassinos como Che Guevara e a comoção popular ante a morte de ditadores vulgares como Chavez não deixam margem a dúvidas: apostar na insensatez gananciosa é mesmo a melhor estratégia de campanha, e o indiscutível regime de que tanto se orgulha aquele meu amigo pode ser resumido, no fundo, a isso: a democracia pretende ser a vontade do povo nas urnas, somados todos os votos; termina por não ser muito mais que o resultado da soma de todos os medos.

Anúncios

Os comentários estão desativados.